24 julho 2014

Pessoas.



Quando eu era pequena, fui ensinada desde cedo á dividir minhas coisas com as pessoas. Eu ficava muito satisfeita quando emprestava meus brinquedos, materiais escolar... Enfim. Eu achava que todo mundo era assim, porque deveríamos compartilhar nossas coisas. Quanto mais eu crescia eu via que não era bem assim. As pessoas perto de mim adoravam fazer inveja com o que tinham. As crianças ficavam felizes em mostrar que tinham isso ou aquilo e você NÃO. Elas gostavam de dizer e inventar coisas que causariam inveja nas outras crianças só para saírem por cima e melhores que as outras. Eu nunca inventava nada. Só contava as coisas que acontecia comigo, inocentemente e era alvo de raivinha, de isolamento algumas vezes. Nem sei por que. Me lembro que quando entrei na primeira série, fui logo sendo tola. Achando que as pessoas assim como EU, não se importavam se tal pessoa era negra, tinha cabelo enrolado, pintas... Achava que todo mundo queria ser amigo, brincar junto e aprender. Achava que iria ter muitos amigos. Engano meu. Eu era só uma garota tonta no meio dos espertos. As meninas da sala eram muito chatas. Só se importavam com a aparência, em ser mais bonita que fulana, em ser a paixão de não sei que menino, em ter a melhor maquiagem. Isso com OITO anos. Os meninos eram mais minha praia. Eles apesar de serem brutos, eram engraçados, gostavam de fazer piadas e sair correndo ao ar livre. Por isso, fiz logo amizade com eles. Sempre sentava nas mesas (eram quatro mesas juntas) cheia de meninos, enquanto as patricinhas se reuniam do outro lado da sala e me olhavam como se eu fosse um bicho estranho. Só porque eu era criança, gostava de me divertir e não tratava ninguém mal, vai entender? Porém, quando elas precisavam de algo, vinham logo para perto de mim sabendo que eu, trouxa no jeito que era, emprestava meus lápis de 48 cores da faber castel, meu dinheiro ou até mesmo meus lanches. Aliás, no intervalo, eu era muito isolada. Eu ficava na porta da sala, comendo sozinha. Aí apareciam algumas pessoas menos preconceituosas, como algumas meninas e muitos meninos para conversar comigo, pegar um pouco do meu lanche (a vá) e me fazer companhia por alguns minutos. Isso já era bom pra mim. Mas eu não era como as garotas que iam se infiltrando nos grupos sabe? Elas viam meninas reunidas e iam lá, começavam a conversar como se fossem velhas amigas enfrentando os olhares de desprezo delas. Eu não tinha essa coragem. Eu não queria estar em um lugar porque venci pelo cansaço. Queria estar lá porque gostavam de mim, me chamaram. Entende?

Enfim. Na terceira série, eu finalmente fiz duas amizades. Daquela de lanchar junto e ficar sempre por perto com duas meninas da sala. Uma delas, na quarta série se bandeou pro grupo das meninas famosinhas da sala, e ficamos eu e uma amiga. Éramos unha e carne, tinhamos uma amizade gostosa o que gerou ainda mais preconceito na sala. Zoavam a gente por sermos AMIGAS. Eles odiavam isso. Por que? Sei lá. Sei que minha amiga vivia chorando pelos cantos, e eu consolava ela dizendo que eles eram idiotas, e que era só fazer como eu: Não ligar.

Foi aí que fui percebendo uma certa maldade... Gratuita nas pessoas. Uma coisa que eu não entendia. Simplesmente porque eu era feliz. Eu amava minha família, minha cadela, meus amigos da rua. Amava os brinquedos que eu ganhava, amava os passeios que eu dava, amava a comida da vovó, os desenhos que eu via e os filmes da sessão da tarde. Amava ser amada por quem eu me importava. Amava cada festa e comemoração que tínhamos, cada piada que meu pai contava, os dias que ele trazia chocolates deliciosos do trabalho, quando íamos buscar ele porque ele ganhara uma cesta de Natal da empresa e precisava de carona, dos jogos do corinthians que faziam minha família vibrar...

Enfim, todas essas coisas me deixavam tão feliz, plena... Que eu simplesmente não ligava para as maldades e isolamentos e ainda por cima não me impediam de dividir minhas coisas com os outros.

Acho que foi aí que algumas pessoas prestaram atenção em mim, e viram que nada do que fizessem poderia me machucar. Foi aí que elas notaram que se não podiam me vencer, que se juntassem á mim.

Acabei fazendo muitas amizades depois disso até a oitava série. Me tornei uma pessoa mais malvada sim, porque com tanta porrada que levei, me tornei mais grosseira, menos tolerante. Mas a essência estava viva.

Notei isso quando entrei pro colégio. Eu odiava ter ido para aquela escola. Então cheguei lá, uma garota novata e gótica, que viera de uma escola particular e era muito quieta. Eu não abria a boca. Fiz amizades logo no primeiro dia, com excluídos como eu que precisavam de uma amizade também. E fiquei com eles até o final do curso. Novamente voltei a ser hostilizada, inventaram apelidos e não falavam muito comigo. E com o tempo, ignorando todo mundo, fazendo o meu, rindo com meus amigos e simplesmente não ligando pros apelidos maldosos, algumas pessoas também quiseram minha amizade, ou pelo menos se aproximar. Mas eu não era mais trouxa ou mole. Agora eu sabia me defender. Tinha uma língua afiada, um olhar de desprezo e um sorriso sarcástico. Agora, eu permitia que se aproximasse quem EU quisesse, e o resto? Era resto. Isso causou mais raiva em algumas pessoas que sinceramente, eu até demorei para aprender o nome em 3 anos de convivência. Voltamos ao início: Maldade gratuita.

A verdade é que eu acabei lidando bem com as situações, acabei mesmo não entendendo o porque de dar apelidos maldosos, xingar as pessoas, me protegendo melhor que muita gente deles.

O Bullyng não me pegou, porque eu simplesmente não deixei isso acontecer. Eu acho que todos deveríamos fazer o mesmo. Ignorar aqueles que nos fazem mal, deixá-los fora da lista das amizades e seguir em frente.

Deixar de lado todo o mal, todo o veneno, toda facada e ficar apenas com as flores do mundo.

Fiz esse texto, porque fiquei irritada com uma pessoa no meu facebook. Não, ele não é malvado. Mas toda santa publicação que eu faço, ele tem um comentário idiota, uma piada sem graça, uma cutucada pra dar. Perdi a paciência e dei um tapa com luva de pelica nele. Ele não gostou, ficou grosseiro de repente. É, quando mostramos que não somos otários é isso que acontece.

Mas fala sério, eu lá preciso de pentelho para comentar minhas publicações? Não né.
Toma que eu sou difícil.

3 comentários :

  1. Ai ai eh vida, acho que todo mundo passa ou passou por coisas assim, o bullyng que sofri na escola me fortaleceu acabei ficando com a língua afiada tb, acho que tudo é aprendizado, o que sei é que só incomodamos quem de alguma forma quer ser igual a nós...

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  2. Me identifiquei contigo, tinha algumas pessoas na 5ª série, que simplesmente não gostavam de mim, me excluiam. As garotas, diziam que "não iam com a minha cara", como você eu tinha 2 melhores amigas, e uma delas, se bandiou pro lado das populares, que me excluiam, eu fiquei com a Bruna, a minha outra amiga, ficamos juntas por um bom tempo, infelizmente, o destino nos separou. Enfim, elas não chegavam a ponto de mim xingar, mas me excluir, não sei até hoje o motivo, porque eu não fiz nada para elas. Mas, já que elas não gostavam de mim, não me importei mais, e fui FELIZ!!!

    naquelesetembro.blogspot.com

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  3. Li o texto toda séria e pronta pra fazer um comentário gigante, quando de repente vejo esse gif... Quase cai da cadeira de tanto rir. HAHAHAHAHAHAHA.
    E eu sei bem como você se sentiu. Eu era meio hostilizada por não gostar de sair, se vestir na moda, maquiagem e ainda por cima ser gordinha e pintar o cabelo de ruivo (por que todo mundo queria ser era loira). Eu nem ligava, apesar de internamente me incomodar um pouco. Com o tempo fiz algumas amizades que realmente pareciam gostar de mim, mas do colégio mesmo não falo com mais ninguém hoje em dia. Sou quieta, mas isso não significa que aceito essa palhaçada (já cortei até uma pessoa no trabalho que começou com essa idiotice de ficar desprezando os outros).

    Acho que as pessoas se importam demais com a vida alheia e se esquecem de tentar fazerem das próprias vidas uma coisa melhor e mais feliz. Não consigo nem lamentar ou sentir pena de gente assim.

    [N]ayh's Wonderland

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