27 fevereiro 2015

#Blessed


Isso é um esboço.

De todas as memórias que tenho, a única que não enxergo embaçada é a da lama escura, cinza. Ela segurava meu corpo e não me deixava levantar. Fiquei dias, longos dias, olhando pro céu escuro e sem estrelas. Nada mudava, nem o ar, nem as pedras e nem mesmo a floresta morta. Ah, ela estava morta. Árvores de um verde apagado... Que espécie de floresta que não tem cores vivas, terra, animais, pode ser viva? O chão era lama pura, pegajosa, difícil de lidar. E mesmo assim, as árvores alcançavam os céus... Cada dia mais.

Quando encontrei forças para levantar, levei um susto maior que estar presa no meio do nada: Não havia caminho á seguir. Não haviam estradas, não haviam pessoas ou sequer uma visão qualquer de civilização. E por mais que meu braço formigue toda vez que procure alguma lembrança de qual seja meu nome ou até mesmo onde estou, nada me vem á mente.

O importante, é que caminhei durante algum tempo, até meus pés doerem e eu ter que tirar as botas negras surradas de lama dos pés, verificando o tamanho das bolhas que surgiram nos meus dedos. Me lembro de parar, sentar, esperar a dor das pernas melhorar e continuar caminhando sozinha. Imagino há quanto tempo fiquei andando, mas me pergunto o motivo de não ter morrido mesmo estando com tamanha sede e tamanha fome.

Mesmo assim não estava desesperada. Não ligava de não encontrar nada pelo caminho, sabia que haveria algo ou alguém nesse lugar e eu acharia mais cedo ou mais tarde...

Tanto que agora estou aqui. Na Pousada do Sol Poente. Um casebre de madeira, caindo aos pedaços. Encontrei em meio muita lama. Estava ali. Tão pequenininho ao longe, mas tão esperançoso. Quando corri para chegar até aqui, me senti viva pela primeira vez.

Entrei, olhei bem o lugar. Havia um bar com uma senhora bastante idosa, que passava um pano surrado no balcão incansavelmente. Um mendigo sentado sozinho em uma das mesas do pequeno local, bebendo muita pinga e falando sozinho. Um grupo de colegiais afastados, que conversavam animadamente enquanto comiam pedaços de pão.

Eu li na placa da entrada os dizeres Pousada do Sol Poente, estadia e comida grátis. Fiquei imaginando que tipo de negócio lucrativo seria esse. Saindo do momento ironia, resolvi me aproximar do balcão e ler o cardápio, que estava exposto ao lado de uma garrafa de pinga.

"Pão".

Era o que dizia o cardápio. Não havia mais nada. Talvez eu devesse considerar que ganhar pão e lugar para ficar de graça, não era tão ruim assim. E mesmo estando com fome de bacon, macarrão ou rosbife, era melhor comer pão á não comer nada.

"Poderia me dar um pão bem fresquinho por favor?" Pedi á senhora, que me ignorou o tempo todo. Ela automaticamente pegou um pão amassado e jogou no balcão para mim. Continuou limpando aquela porra como se não estivesse limpo o bastante.

Peguei meu pão amassado e fui até uma das mesas do canto, sentar e descansar as pernas. Enquanto comia desesperadamente, consegui observar bem o perfil dos visitantes. O mendigo estava só alegria, bebendo pinga á beça e conversando com um amigo imaginário.

Já os colegiais, bem, são como os que me lembro dos tempos de escola. Eu não gostava muito da galera que estudava naquele colégio. Todos com rei na barriga. Passei anos difíceis, observando todo mundo de longe, como estou fazendo agora. Sinto meus 16 anos pesarem de novo nos meus ombros.

Olhava pela janela e não havia nada no céu. Nem mesmo uma estrela. Era noite ou dia afinal? Nunca vi o Sol, ou a Lua. Nunca vi pessoas, nunca vi casas ou moradias. Que lugar era esse... E o pior: Por que estou aqui? Eu deveria ter um nome... Ou pelo menos me lembrar de alguém. Mas não vinha nada na minha mente...

Minha barriga estava roncando forte quando terminei de divagar. Fui até o balcão e pedi mais um pão, mas a resposta da idosa foi apontar o dedo sujo de lama em uma placa que dizia "Limite de um pão por dia, três garrafas de pinga e um banho".

Suspirei fundo, virando desanimada para a porta. Foi aí que me dei conta que havia um homem com vestes compridas e vermelhas olhando para o céu. Ele estava sério, e pouco atento ao seu redor. Sua expressão forte, cansada e seus olhos profundamente cinzas me deixava arrepiada. Ele carregava um tridente em sua mão direita, então acredito que esteja aqui para proteger o local de algo. Mas nunca vi um guarda de segurança usar um tridente como arma. Seria muito mais útil uma 38.

Aproximei-me dele, cautelosa, um pouco assustada, admito. Mas talvez ele possa ser a resposta de tudo. Afinal, aqui ninguém parece querer conversar comigo. 

"Senhor, poderia sanar uma dúvida?" perguntei cautelosa, olhando para suas botas cheias de lama.
"Pergunte" soprou a voz grave. Arrepiou até minha espinha.
"Este lugar, esse deserto de lama, fica exatamente em que região do país?"
"Esse lugar não é um país".
"Como não é um país? Todos moramos em algum país. Poderia me dizer pelo menos se posso chamar a polícia, através de algum telefone. Eu estou há muito perdida aqui. Não sei se sofri algum acidente, porque parece que perdi minhas memórias".
"Polícia" ele riu, pela primeira vez. Uma gargalhada profunda.
"Aqui também não existe polícia? Tenho que falar com quem então?" indaguei irritada.
"Aqui minha querida, é o inferno. Seja lá o que fez para merecer estar aqui... Seja bem vinda".


Lembro que escrevi alguns capítulos dessa história quando estava no colégio. Um dia, fuçando arquivos antigos de um pc velho, encontrei a história que havia esquecido. Engraçado como ela sumiu da minha memória. Mas eu gostava tanto dessa história...



Ainda não gosto de como escrevi. Quero apagar tudo e refazer.

7 comentários :

  1. Muito bom, moça! Gostei doa história, espero que continue escrevendo pois quero saber mais, coisas sobrenaturais são sempre boas de ler.

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  2. Nossa!Foi um início de história bem diferente e eu gostei muito!Espero que continue,porque também quero continuar a ler!
    Vou ficar na espera hein!
    Ah!E está ótimo,não precisa refazer não.
    Beijos :*
    seessemundofossemeu.blogspot.com

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  3. Está lindo! adoro
    Beijinho
    http://adonadasushi.blogspot.pt

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  4. Oi Mari, tudo bem? Também tenho alguns textos que eu escrevia na época da escola e estou passando tudo para o computador. Nem tudo é aproveitável, hahahha, mas Os Sonhos de Rita surgiu de um esboço assim que eu escrevia no meu caderno de aula :)
    Beijooos
    http://profissao-escritor.blogspot.com.br/

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  5. Como você escreve bem, quando eu era pequena escrevia histórias naquelas comunidades do orkut rsrsrs.

    http://Secret Place/

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  6. Adoro histórias sobrenaturais! O texto está ótimo e me prendeu do começo ao fim, então não refaça, apenas continue a história. Está ótima, adorei cada linha. Bjsss www.janelasingular.com.br

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  7. Nossa, adorei essa história! Tem alguns pequenos erros de ortografia que eu corrigiria, mas o enredo está muito bom. (desculpa ser a chata, hahaha)
    O final foi muito surpreendente e eu adoraria ler mais dessa história. Saber por que ela foi parar ali, como funciona esse inferno e tudo mais. Se você for escrever, saiba que terá uma leitora fiel. :)

    Também me lembrei agora dos tempos de colégio em que eu escrevia histórias aleatórias e criava personagens... Que saudade. Deu até inspiração para escrever sobre eles novamente. ♥

    [N]ayh's Wonderland

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