09 janeiro 2016

O príncipe Dragão



Vim trazer pra vocês um conto da Romênia, quando li era criança e fiquei ligeiramente perturbada com ele hahaha. Logo vocês vão entender o motivo... Ao mesmo tempo, é surpreendente que mesmo em tempos tão antigos, essa fosse uma situação já existente e de certa forma, pelo menos no conto, foi tratada com bastante naturalidade. Vamos conhecer? Acho que vão gostar.


Era uma vez um imperador que vivia conquistando países alheios. A cada conquista ele obrigava o rei derrotado a lhe enviar um de seus filhos para serví-lo durante dez anos. Esse era o preço da paz.

Um velho soberano resistiu por muito tempo aos exércitos do imperador, mas também acabou se rendendo. Só que tinha três filhas e nenhum varão. Como poderia assegurar a paz de seu povo?

Vendo-o caminhar de um lado para o outro, as princesas lhe perguntaram a causa de tamanha aflição. O rei lhes contou tudo, concluindo com um suspiro: “Ah, se eu tivesse um filho homem!”.

“Somos mulheres, mas não somos inúteis!”, elas protestaram.
“Claro que não! Vocês sabem fiar, tecer, costurar ... Mas não sabem empunhar uma espada e enfrentar o inimigo no campo de batalha!”.

“Pois vou lhe provar que está muito enganado!”, a filha mais velha declarou, ferida em seus brios. Depois de vestir uma reluzente armadura, foi até o estábulo e escolheu um fogoso cavalo de pelagem prateada e olhos faiscantes. Montou-o, decidida, e partiu.

O velho rei, que era mágico, transformou-se num grande lobo cinzento e se escondeu sob a ponte por onde sua filha ia passar. Quando a moça se aproximou, toda garbosa em seu belo cavalo, o lobo saltou para a ponte, arreganhando os dentes e soltando um uivo assustador. Foi o bastante para ela arrepiar carreira a todo o galope.

Valendo-se de seus poderes mágicos, o rei num instante voltou ao palácio e esperou. Quando a filha chegou, ofegante e apavorada, abraçou-a com carinho e disse: “Obrigado pelo esforço, querida, mas mosca não produz mel”.

Então a filha do meio resolveu partir e também fugiu do lobo. Chegada a vez da caçula, o pai perguntou: “Você se julga mais corajosa que suas irmãs?”.
“Não, mas por você eu seria capaz de picar o próprio diabo em pedacinhos”, ela respondeu. “Pode ter certeza que não vou falhar”.

A princesa vestiu a armadura e foi ao estábulo. No entanto, em vez de escolher o corcel prateado, montou o velho e experiente Raio de Sol, cavalo que acompanhara seu pai em muitas batalhas.

Ao se deparar com o lobo, sacou a espada e investiu contra ele com tamanha determinação que o animal recolheu as garras, meteu o rabo entre as pernas e fugiu.

Na ponte seguinte o soberano tentou assustá-la apresentando-se na forma de um leão apavorante, que ela também afugentou. Na terceira ponte o rei lhe apareceu como um dragão de doze cabeças, que soltava chamas por todas as narinas. Com um golpe de espada a princesa lhe cortou uma das cabeças, e seu pai reassumiu a forma humana. “Você é mais corajosa que suas irmãs”, ele falou. “E ainda é muito sensata, pois escolheu o cavalo certo, que lhe dará bons conselhos. Vá falar com o imperador e diga-lhe que é meu filho, o príncipe Dragão!”.

A jovem destemida seguiu seu caminho e alguns quilômetros adiante viu uma mecha de cabelo dourado, brilhando na poeira da estrada. “Devo pegá-la ou não?”, perguntou.

“Pegando-a ou não, irá se arrepender”, o cavalo respondeu. “Portanto, pegue-a”.

Ela desmontou, apanhou a mecha e pendurou-a no pescoço.

“Esse cabelo pertence à princesa Iliane, a moça mais linda do mundo”, Raio de Sol informou.

Horas depois o imperador recebeu em seu palácio o garboso principe Dragão e logo o elegeu seu pajem favorito.

Um dia lhe perguntou por que trazia aquela mecha de cabelo pendurada ao pescoço e obteve a seguinte resposta: “Ela pertence a princesa Iliane, a moça mais linda do mundo”.

“Ah, é?”, replicou o soberano, pensativo. “Ora, já que sou o homem mais poderoso do mundo, a moça mais linda do mundo tem que ser minha esposa!”, exclamou, voltando-se em seguida para o pajem: “Traga-a aqui, ou mandarei matá-lo!”.

Sem saber o que fazer, o falso principe procurou Raio de Sol. “Peça ao imperador um navio cheio de tesouro e vá até a ilha onde uma ogra mantém Iliane prisioneira”, o fiel cavalo aconselhou. “Apresente-se como mercador e convide a princesa a bordo com o pretexto de lhe mostrar algumas mercadorias. Ao assim poderá libertá-la”.

Dragão seguiu a risca as instruções de Raio de Sol, mas pouco depois a ogra, furiosa, partiu seu encalço. A cada passo a medonha criatura tocava o céu com um pé e mergulhava o outro no fundo do mar, aproximando-se mais e mais dos fugitivos.

Quando o navio aportou, Dragão e a princesa desembarcaram rapidamente e montaram Raio de Sol, que os esperava. “Pegue uma pedra em minha orelha esquerda e jogue-a para trás”, o cavalo ordenou. O falso pajem obedeceu, e a pedra se transformou numa montanha imensa que, entretanto, a ogra tranpôs sem esforço.

“Arranque alguns pelos de minha orelha esquerda e jogue-os para trás”, o cavalo ordenou. Dragão assim fez, e os pelos se converteram numa floresta intrasponível. Pois a ogra subiu numa árvore e, pulando de copa em copa, como um macaco, cruzou a floresta num minuto.

“Tire o anel do dedo da princesa e jogue-o para trás”, disse Raio de Sol. O anel se transformou numa torre oca. A ogra saltou para o alto da torre e se estatelou no chão, despedaçando-se. Livre de sua perseguição, os três logo voltaram ao palácio imperial. “Você é mesmo a moça mais linda do mundo, digna de ser minha esposa”, o imperador declarou, babando de prazer. “Desculpe, Majestade”, Iliane respondeu, “mas só me casarei com o homem que me trouxer um frasco da água santa que está guardada por um eremita numa igrejinha do rio Jordão”. Imediatamente o soberano encarregou seu pajem predileto de realizar mais essa façanha.

Dragão montou o fiel Raio de Sol e, com sua ajuda, roubou a água. Ao se afastar para iniciar a viagem de volta, o eremita, que não o vira entrar na igrejinha, lançou-lhe uma praga: “Tomara que você vire mulher, se for homem, e vire homem, se for mulher!”.

Assim, quando retornou ao palácio, Dragão já se transformara num principe de verdade. Entregou o frasco a seu amo, que, sem ao menos lhe agradecer, perguntou a Iliane: “Agora você se casa comigo?”

“Não”, ela respondeu, “pois quem me trouxe a água santa foi Dragão, não você”.

O imperador ficou tão furioso que nem conseguiu respirar e acabou sufocado pela própria raiva. Dragão assumiu o comando de seu vasto império e se casou com a princesa, que lhe deu muitos filhos e o fez feliz até o fim de seus dias.

2 comentários :

  1. awwwwnn, gente! que história mais linda! quantas lições de vida num só conto, hein?! eu jurava que o conto ia focar somente as filhas do rei. que ledo engano.

    o conto só mostra que com determinação, força e inteligência a gente é capaz de tudo. tudo mesmo.

    bjs!
    Não me venha com desculpas

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    1. Que bom que gostou *-* é um conto super forte

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