08 julho 2016

A cultura do estupro


Não sou feminazi. Não vou tirar a blusa. Não vou cortar seu pinto. Não vou dizer que odeio homens.
Sou uma pessoa que preza pelo ser humano e seus direitos. Sou alguém que acredita na bondade.

Hoje, eu e a Ana fomos ao Anime Friends 2016. Tenho muito á dizer sobre o evento, sobre o que percebi sobre o Brasil e sobre mim mesma dentro daquele espaço, mas infelizmente neste post preciso falar de algo mais sério, mais urgente.

Em meio á muitas atrações nós paramos no ringue da BWF para dar uma olhada nas lutas. De repente, um funcionário deles se aproximou de nós e disse:

─ Dizem por aí que quem para pra olhar tem que entrar no ringue.

Nós rimos, eu e Ana dissemos que não queríamos, obrigada.

─ Não tem essa de não querer. É bom pra acabar com o sedentarismo - insistiu o homem.
─ Minhas pernas estão doendo, ontem fiz academia, não quero lutar - respondeu Ana.
─ Tem gente aí com pino no joelho e você vem com papo de academia? Vamos pro ringue! - indagou.
─ Não é porque tem gente que quer se matar que eu também quero - finalizou Ana.

Bom, estava ficando uma discussão chata, achei que ia parar por ali até que, de repente sinto uma presença atrás de mim. Não galera, não era o belzeebub, era um homem de 2 metros de altura e super forte, parado bem nas minhas costas sorrindo.
Eu ri sem jeito, entendi a brincadeira, ok foi engraçado. Mas já deu, né?

─ Se você não quiser ir por conta, ele leva você - riu o funcionário.
─ Ele não vai me levar - respondi irritada - eu não vou lutar e pronto.
─ Ah não vai? - desafiou o funcionário.

Fez um sinal com a mão e outros 2 caras fortes surgiram e fecharam a gente num círculo bem acirrado, incomodo.

Começaram a rir e falar bobagens, e eu estava realmente me controlando pra não xingar ninguém. Respirei fundo e sai de dentro dessa rodinha machista.

─ Ei, tá fugindo?
─ Não, é que vocês estão invadindo o meu espaço.

Dois dos rapazes notaram que eu engrossei feio, e saíram de perto.
O outro funcionário continuou insistindo:
─ Ah desculpa, agora você tem um espaço?

Ri pra ele, e respondi irônica:

─ Tomos temos. E acho bom você não invadir o meu.

Ele começou a dar um mini showzinho, esticou o braço para delimitar até onde poderia chegar.
Depois, insistiu de novo para irmos pro ringue. Irritada, respondi:

─ Você não quer que uma garota que nunca lutou antes entre num ringue pra brincar de luta com esses caras né?
─ Ué, vocês não queriam direitos iguais?

Tá, perai. Machista detected.

Primeiro, sim, defendo direitos iguais. Em nenhum momento eu disse que não. Mas pra mim, direitos iguais tem algo a ver com esses exemplos:
  • Receber salário igual ao de um ser humano do sexo masculino, caso minhas especificações profissionais permitam-me assim como minha formação acadêmica.
  • Poder entrar numa empresa tranquila, sem medo de ter problemas caso eu engravide. 
  • O homem ter mais de uma semana de licença maternidade. 
Claro, vai muito além disso, mas foi só para exemplificar.
Uma garota que nunca lutou antes entrar num ringue cheio de homens desconhecidos a força (eu disse que não queria) me parece algo longe de DIREITOS IGUAIS.

No fim das contas, encerrei a discussão com a seguinte frase:
─ Estou me reservando ao direito de apenas observar.
Dessa forma, ele sem mais argumentos saiu de perto resmungando.
Claro, já que aquela rodinha foi formada de tal forma, acredito que não fui a primeira nem a última pessoa a ter sido exposta á esta situação constrangedora.
Acho que, se quer atrair alguém pro seu estande/atração, não é na base da pressão que vai conseguir.
Má ideia meu amigo.

Eu como mulher me senti lesada, sim.
Fiquei imensamente constrangida de ter 5 homens desconhecidos em minha volta fazendo pressão.
Fiquei imensamente chateada de dizer que não queria participar e a pessoa insistir e ainda me faltar com respeito.
Fiquei imensamente chocada por isso ter acontecido dentro do Anime Friends.

Lá dentro, houveram situações de cantada, olhares etc. Por exemplo, um youtuber que eu não conheço estava fazendo um vídeo e eu estava passando ao lado, ele disse a seguinte frase:

─ Tem muita mulher bonita nessa evento, tem uma mulher aqui na minha frente com cabelo longo pintado nas pontas que é linda!
Eu olhei pra trás, e ele disse apontando pra mim:
─ Você é muito linda, muito linda mesmo!

Eu ri sem jeito e sai de perto.
Fim. Sem drama.

Agora, ninguém chegou ao extremo como este rapaz da BWF.
Honestamente, espero que não se repita.
Nesses eventos existem crianças, menores de idade e mesmo que não fosse assim, NINGUÉM MERECE SER SUBMETIDO Á ISSO.
Pode falar que é brincadeira, que estou sendo radical. Mas sei como me senti mal, como me senti humilhada ou pelo menos constrangida DEMAIS até mesmo pra passar perto da BWF depois.
Precisamos mesmo mudar essa sociedade. Rápido.
Para ele pode não ter sido nada. Mas pra nós foi uma grande coisa.

2 comentários :

  1. Isso é de uma falta de educação, empatia, que é complicado entender. Um grande problema a falta de limites, de respeitar um não, perceber o próximo como um ser humano e não como coisa, lamentável mesmo.

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  2. Meu sangue ferveu só de ler esta publicação e imagino como vc deve ter se sentido na hora.
    Penso como vc: "Não sou feminazi. Não vou tirar a blusa. Não vou cortar seu pinto. Não vou dizer que odeio homens.
    Sou uma pessoa que preza pelo ser humano e seus direitos. Sou alguém que acredita na bondade."
    O cara foi ridículo, te desrespeitou e eu nem sei o que teria feito no seu lugar..
    que odio

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